quinta-feira, 4 de outubro de 2012

'O cenário da produção do jazz no Maranhão está muito bom'

O escritor, radialista, músico e cantor Augusto Pellegrini é um dos principais pesquisadores e representantes do jazz no Maranhão.
 
Raíza Carvalho
Da equipe de O Estado
Como pesquisador, escritor, radialista, músico e cantor, Augusto Pellegrini se consagrou como um dos representantes do jazz no Maranhão. Detentor de um profundo conhecimento sobre o ritmo, ele já escreveu dois livros relacionados ao assunto, Jazz das Raízes ao Pós-bop e As Cores do Swing, ainda em fase de produção.Um pouco da paixão e do conhecimento musical de Pellegrini poderá ser apreciado em seu show hoje, às 21h, no bar Barulhinho Bom (Lagoa da Jansen). O cantor será acompanhado pelo Duo Arpége, composto pelo guitarrista Júlio Martins e o baterista Daniel Aranha. O show Jazz and Blues trará uma proposta sonora diferente da que o cantor costuma apresentar.
Realizado pela Satchmo Produções, o evento proporcionará aos presentes uma noite de música com repertório variado. "Não será somente jazz. Terá um pouco de blues, de bossa nova e música brasileira, como Tim
Maia, Roberto Carlos, Lulu Santos", disse. O cantor explicou a proposta do nome Arpége "Convencionou-se chamar os músicos que me acompanham de Arpége. Como hoje são só dois, eles formam um duo. Arpége é o nome de uma boate da França e de São Paulo. Então, o nome é uma referência à música da noite", revelou Pellegrini.
O respeito conquistado por ele como referência no jazz também está relacionado com seu trabalho no rádio. Há 30 anos, Pellegrini produz e apresenta um programa sobre o ritmo, que começou na Rádio Mirante FM e hoje é exibido na Rádio Universidade FM, com o nome de Sexta Jazz.
Seu primeiro fruto literário como estudioso do estilo, Jazz das Raízes ao Pós-bop, faz um passeio pela história do gênero musical que revolucionou o cenário artístico no início do século XX. Pellegrini realiza uma volta ao passado que vai de Nova Orleans a Chicago e a Nova York, traçando um panorama histórico da trajetória do jazz, representado por Louis Armstrong, Duke Ellington, Benny Goodman, Charlie Parker, Dizzy Gillespie e muitos outros.
Sua produção mais recente sobre o assunto, que está sendo finalizada, é considerada mais madura pelo próprio autor. O livro está concluído, mas o autor busca patrocínios para a edição e lançamento. Nesta entrevista a O Estado, Augusto Pellegrini abordou o cenário do jazz no Maranhão.

O Estado - Em poucas palavras, como você definiria o cenário jazzístico maranhense?
Augusto Pellegrini - O cenário da produção do jazz no Maranhão está muito bom, e eu digo, com certeza, tive uma participação muito grande nisso. Há 30 anos eu tenho um programa de jazz que começou na Mirante FM e hoje está na Rádio Universidade FM. Eu acabei criando algumas gerações de músicos que gostaram do ritmo e depois se aprofundaram. Hoje temos músicos fazendo estilos muito mais modernos, que parecem mais com a música brasileira e estão levando muito público. Qualquer show de jazz aqui em São Luís já lota a casa. Temos bons artistas, bons intérpretes, de modo que eu vejo isso com muita confiança no futuro.

O Estado - Como você avalia o jazz moderno e as influências que ele agrega, fazendo mesclas com a música brasileira e latina? Você acha que essa mistura de ritmos regionais com o jazz é algo que deve ser estimulado?
Augusto Pellegrini - É inevitável. O jazz foi sempre assim. Quando começou no início do século XX, ele tinha uma característica que foi se modificando ao longo do tempo, e o jazz nas décadas de 1940, 1950 já não era o mesmo de quando começou. Ele vai mudando, se transformando, adquirindo influências externas. É impossível, no mundo globalizado em que vivemos, não haver influência oriental, brasileira. É natural, desde que apresente qualidade. O grande desafio do músico de jazz que procure entrar em um caminho desses é ter qualidade. Não pode só fazer por fazer.

O Estado - Quem faz jazz hoje no Maranhão?
Augusto Pellegrini - Cantores existem poucos, como a Milla Camões e eu. E há outros que não cantam exatamente jazz, mas suas músicas com uma influência muito grande, como a Tássia Campos, a Anna Cláudia, o Cláudio Lima. Já instrumentistas temos muito, como o Japona, o Jair Torres, o Isaías Alves, Celson Mendes, Pedro Duarte e muitos outros!

O Estado - Existe algum instrumento que não pode faltar na execução do jazz para que este não deixe de ser jazz? Como imprimir identidade a este ritmo?
Augusto Pellegrini - Não somente um, mas alguns instrumentos, na verdade. Há uma linha harmônica que pode ser feita pela guitarra, pelo violão ou pelo piano. A pulsação do baixo é muito importante e a bateria também. Lógico que existem músicas em que você deixa de utilizar alguns instrumentos. Depende do músico. Tem os sopros também. O jazz fica mais perfeito quando você utiliza um saxofone, um trompete. Eu tenho uma vivência muito grande com o ritmo e escuto o ritmo desde menino. Então, você absorve o espírito dessas músicas. Começa a cantar como se fosse um instrumento. Não canta como um canto gregoriano, e dentro da linha melódica, faz o que faria um saxofone. Cada cantor tem seu estilo de interpretar, mas sempre coloca algo de instrumental dentro da voz.

O Estado - Quando e como começou sua história com o jazz? O que você recomenda para quem quer conhecer o estilo?
Augusto Pellegrini - Desde menino eu ouvia discos que o pessoal de casa tinha e achei muito interessante aquele som e gostei. Adolescente, com um dinheiro, eu comprava discos e comecei a acompanhar. Hoje em dia, não dá para acompanhar. Lá pelos anos 1990 eu parei de seguir os músicos de jazz. Eu conheço biografia e o que eles fazem. Os mais novos, eu já estou meio perdido. Fazendo o programa, acabei pesquisando mais.

O Estado - Certa vez, você declarou que não gostaria que o jazz se popularizasse tanto. Por quê? Não seria interessante apresentá-lo a um público que nunca teve a oportunidade de conhecê-lo?
Augusto Pellegrini - Quando você populariza demais, perde a qualidade. Isso aconteceu com o samba, que é uma música muito boa, mas começaram a aparecer diversos grupos. Hoje em dia, os caras não têm conteúdo e se unem para fazer aquela coisa chamada pagode. Eu tenho medo que o jazz se popularize para chegar a esse ponto. Mas estamos tentando apresentar o estilo para as pessoas, e já existem casas em São Luís que fazem isso, como o Expand Store, Barulhinho Bom, o Cumidinha de Buteko e o Canto da Arte, que inaugurou na sexta-feira (28), onde o jazz agradou bastante. O gênero musical está começando a ser divulgado melhor, sem perder a qualidade.

O Estado - Não é fácil encontrar CDs, DVDs e discos de jazz aqui em São Luís. A dificuldade é presente não somente quanto ao jazz, mas há uma carência desses produtos de forma geral, que se acentuou com a popularização da internet. As pessoas têm que recorrer à venda on-line ou até mesmo à pirataria. Você acha que deveria haver mais lojas de CDs e discos na cidade? Há mercado para isso?
Augusto Pellegrini - Com relação ao mercado, eu não posso dizer com certeza. Teve gente que já tentou e não conseguiu. Na verdade, no Brasil, não somente em São Luís, você tem uma dificuldade com loja de disco e livraria, porque o consumidor brasileiro não é como o europeu, que consome muito livro, muito disco, e as lojas precisam vender comercialmente também. Aí, eles pegam os CDs das novelas porque sabem que vai haver público para isso, vai vender. De resto, se colocar um João Bosco, um Paulinho da viola, vai ter a mesma falta de procura de um CD de jazz. Falta alguma coisa em São Luís. Por exemplo, em São Paulo e no Rio, existe a Livraria Cultura, que é quase uma casa de shows. Você chega lá e vai tomar um café, um chopinho, lê um jornal, curte um happy hour. As pessoas vão lá para consumir cultura e acabam comprando livros e discos. Talvez alguém tivesse essa ideia para São Luís, já que nossa cidade está crescendo e existe um interesse cultural maior. Dá para perceber pela quantidade de gente que está indo a todos os tipos de show. É fazer algo desse tipo para congregar esse tipo de cultura.

O Estado - Em Jazz das Raízes ao Pós-bop, você faz um passeio pela história do jazz. Essa é a primeira literatura maranhense sobre o assunto?
Augusto Pellegrini -Eu acredito que sim. Depois dessa, teve um livro do Hélio Cordeiro chamado Confesso que Ouvi, mas isso veio depois. O máximo que pode ter havido antes são alguns artigos, uma coluna de jornal, mas livro, com certeza, foi o primeiro. Está à venda na internet, mas não deve haver muitos exemplares, porque a editora não quis republicar. Publicar também é um problema. Eu tenho um livro novo de jazz chamado As Cores de Swing, que fala sobre as grandes orquestras. Mais do que falar sobre as grandes orquestras, fala sobre o mundo entre 1920 e 1950, passando por grandes transformações, como a guerra mundial, eventos da indústria automobilista, fonográfica, a recessão dos Estados Unidos, a Lei Seca. Vou em cima de tudo isso usando o jazz como fundo, com o surgimento das big bands. Acho esse livro mais interessante que o primeiro, porque vê a coisa de forma global. O primeiro é mais focado no jazz, as origens, os elementos, os estilos e os músicos. A ideia era fazer uma publicação de âmbito nacional, porque é um assunto que interessa ao país inteiro, mas se eu quiser vê-lo publicado, vou acabar tendo que publicar aqui mesmo, bem mais restrito.

Serviço


• Show
Augusto Pellegrini e Duo Arpége
• Quando
Hoje, às 21h
• Onde
Bar Barulhinho Bom, Lagoa da Jansen (Rua dos Maçaricos).
• Ingressos
R$ 15,00

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