segunda-feira, 12 de setembro de 2011

São Luís e a beleza dos azulejos





Thamirys D´Eça
Da equipe de O Estado

Atenas Brasileira, Ilha do Amor, Jamaica Brasileira, Ilha Rebelde, Capital Brasileira da Cultura, Cidade dos Mirantes, Rainha do Maranhão, Petit Paris, Cidade Patrimônio da Humanidade, Cidade dos Sobradões. São diversos epítetos que São Luís ganhou nos seus 399 anos de fundação - completados quinta-feira (8) -, mas nenhum é tão representativo quanto o de Cidade dos Azulejos. A capital maranhense é uma das cidades brasileiras com maior predominância desses exemplares do período colonial e imperial.
Conforme o Catálogo dos Azulejos de São Luís, publicado em 2004, são 423 imóveis com azulejos históricos em São Luís. As peças importadas da Europa (Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha, Espanha, Holanda e Portugal) datam dos séculos
XVIII, XIX e início do século XX e estão espalhados por 220 hectares do Centro Histórico da capital maranhense.
A maioria dos azulejos é de origem portuguesa e de padrão estampilha. A identificação da procedência é feita observando a marca da fábrica no verso da peça, o que torna o trabalho difícil. Outros tipos são os decalcomania, liso, majólica, marmoreado, de relevo, além de cercaduras e frisos. A maioria é disposta nas fachadas, varandas, corredores principais e escadas dos imóveis, assim como capelas e outros ambientes.
Encantando quem visita a área histórica, os azulejos chamam a atenção por seu refinamento, cores e tipos. “É lindo. Nunca tinha visto algo assim. Sabia que São Luís era considerada a Cidade dos Azulejos, mas não esperava que encontraria em tantos lugares e de uma maneira tão bela. Fotografei vários, pois estou encantada”, descreveu a turista paranaense Giulia Camargo. Ela faz parte dos 2 milhões de visitantes que desembarcam em São Luís para conhecer a sua cultura, história e arquitetura.
Patrimônio ameaçado - Apesar da grande representatividade histórica e até sentimental para a cidade, muito dessa arte tem se perdido. Segundo Kátia Bogéa, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Maranhão (Iphan-MA), o abandono de alguns casarões rende hoje cerca de 300 processos em andamento na Justiça. “O pior é que quando a sentença sai, concluindo que o dono do imóvel tem de preservar, o prédio já até caiu”, lamenta.
Em contrapartida, o número de solicitações para restauro por parte dos proprietários dos imóveis de patrimônio azulejar ainda é muito pequeno. “Tem meses em que a gente não recebe nenhuma. É raro algum dono querer pagar o restauro. É um processo demorado e caro, por isso estamos perdendo muito disso”, explica Kátia Bogéa.
De acordo com estimativa feita no Catálogo de Azulejos de São Luís, o patrimônio urbanístico cultural do Centro Histórico perde dois casarões azulejados por ano. A publicação apontava na época que 56 das edificações possuíam infiltrações, 57 estavam com a fachada tomada pela vegetação, 340 com algum tipo de degradação causada por micro-organismos, 182 sofreram agressões de vândalos (saques, pichações, colagens, entre outros), 96 possuíam instalações elétricas fincadas nas peças e 25 com instalações hidráulicas deterioradas, 103 com ferragens e 60 com placas de anúncios.
Para tentar reverter o quadro, os poucos profissionais que existem especializados em restauro de azulejos em São Luís se dedicam fielmente à arte minuciosa. A única empresa existente na cidade que faz o trabalho é a Angra Arte Restauro, de propriedade de Roberta Costa, uma baiana que se apaixonou pela cidade histórica há 15 anos.
Ela diz que a opção pelo uso dos azulejos das fachadas dos prédios era em função das condições climáticas da cidade, que, por sua vez, foram responsáveis por parte dos danos aos revestimentos das fachadas em azulejos. “Os fortes ventos provocam processos de erosão e consequentes perdas de quantidade de peças, com descolamento entre o biscoito e a parede, entre o vitrificado e o biscoito, principalmente na fachada mais exposta. As quedas também se dão pelos cristais de sal da argamassa de junção e o trazido pelos ventos e pelas chuvas, que ao aflorar rompem com o vitrificado, além de desestruturar a argamassa”, explica Roberta Costa.
A restauradora explica ainda que quando iniciado um processo de degradação, as águas pluviais encontram espaço de penetração e aceleram o processo de desestruturação, complementados pela acidez dos gases dos automóveis e das fezes de pássaros, sobretudo, dos pombos. Segundo ela, é imprescindível a restauração das peças ou mesmo dos fragmentos existentes, preservando a maior parte dos elementos remanescentes, evitando-se ampliar o grau de perda das peças originais, substituindo-se somente as perdas já ocorridas.
Atualmente, Roberta Costa e sua equipe estão se dedicando à restauração dos azulejos da antiga Fábrica Santa Amélia, localizada na Rua Cândido Ribeiro, no Centro. São mais de 3 mil peças que compõem a fachada a ser restituída. Os exemplares são de origem portuguesa datados do século XIX de técnica estampilhada. Há oito meses os restauradores trabalham no prédio que abrigará os cursos de Hotelaria e Turismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A previsão é que a tarefa se encerre nos próximos dois meses. No lugar serão restaurados a fachada, barrados de vestíbulos, alisares, circulações, sobrevergas, platibandas, tarja e adornos isolados.
Exposição - Quem não puder percorrer as ruas do Centro Histórico de São Luís para conhecer os azulejos de capital, pode ter contato com exemplares reunidos no Museu de Artes Visuais, localizado na Rua Portugal, na Praia Grande. A visitação acontece de terça-feira a domingo, das 9h às 18h.
No local, são encontradas peças do início do século XVIII, do século XIX e do século XX que representam o revestimento de casarões antigos erguidos em São Luís e que registram características que revelam a riqueza de cores e estrutura dos azulejos.
São mostrados azulejos que apresentam a forma de alisares com enquadramentos retilíneos e elementos decorativos polícromos em que predominam os florões, as grinaldas, as plumas e os medalhões com paisagens, entre outras peças.
O conjunto mais raro da exposição do museu é datado de meados do século XVIII. Cada um dos azulejos tem o tamanho padrão de 13 centímetros quadrados, a técnica de pintura adotada é a majólica - pinturas à mão.
Na exposição é mostrada ainda a evolução da produção de azulejos. A partir do século XIX, por exemplo, os azulejos passaram a ser produzidos pela técnica de estampilha – um tipo de chapa –, de fabricação semi-industrial. Somente no século XX a produção de azulejos foi mudada, tornando-se totalmente mecânica.

Um sítio com a história marcada nas paredes


No Sítio Piranhenga, no Parque Pindorama, os azulejos são encontrados em bancos, paredes, escadarias e no muro da edificação
Em construção do início do século XIX e com 42 hectares de história, o Sítio Piranhenga proporciona um passeio pela história da cidade. Entre as atrações do lugar situado na Rua Ipixuma, número 100, Parque Pindorama, os azulejos se tornam destaques. De variados tipos e com peças raras, a visita ao sítio entrou para o roteiro turístico da cidade.
No Piranhenga as peças podem ser observadas em bancos, na escadaria e no muro da Casa Grande, como na varanda. Entre alguns tipos, são vistos exemplares portugueses e franceses, em estilo que remetem à época do Marquês de Pombal e também com temas florais. Tudo foi construído por escravos, que eram mantidos em uma senzala existente até hoje no sítio.
Na capela - ao lado da residência principal – o estilo de construção é colonial, que data do século XVIII. O revestimento também é de azulejos e o padrão encontrado é o de alto relevo. As paredes internas da capela também possuíam azulejos similares, mas a ação de vândalos degradou parte da sua estrutura original, passando agora a ter réplicas de cimento.
História - O local foi fundado pelo tenente José Clarindo de Sousa entre os anos de 1805 e 1810 e era destinado à fabricação de cal. Por isso, passou a ser chamado de Piranhenga, nome indígena que significa lugar de fogo (o fogo era usado para produzir o cal). Quando morreu, em 1939, deixou o legado ao sobrinho Luís Eduardo Pires, que conservou o ambiente tal qual foi entregue pelo tio.
O terceiro dono, em meados de 1945, foi o casal de romenos Jean e Virginia Efeme. Durante o período, Virginia fez aplicações de mosaicos nas paredes do sítio, enriquecendo ainda mais a estrutura do lugar. Por ser artista plástica, fez ainda outras intervenções estéticas no sítio.
Atualmente, o sítio é cuidado pelo padre francês Jean Maria Maurice Lecorn, o João de Fátima do Maranhão. “As pessoas se encantam com o lugar e os azulejos chamam muita atenção”, diz o sacerdote de 79 anos. Ele conta com ajuda de Fátima Aragão, coordenadora do sítio.
O local faz parte do Centro Educacional e Profissionalizante do Maranhão (Cepromar), que tem por objetivo desenvolver atividades socioeducativas, desportivas e culturais junto aos moradores dos bairros adjacentes. Tem como atrações, além dos passeios por casa, capela e senzala, um minizoológico com animais em extinção e trilhas ecológicas.

Algumas ruas onde se encontram azulejos em São Luís


Rua Grande, de Santana, do Sol, São João, dos Afogados, das Hortas, do Passeio, do Giz, do Norte, de Nazaré, de Santana, do Ribeirão, Jansen Muller, das Mangueiras, da Saúde, Santa Rita, das Crioulas, da Estrela, da Manga, Praça João Lisboa, do Coqueiro, Portugal, Direita, dos Barqueiros, da Cruz, do Machado, João Lisboa, da Paz, Godofredo Viana, Huberto de Campos, da Palma, de Santo Antônio, do Mocambo, dos Craveiros, do Alecrim, Isaac Martins, Rio Branco, do Egito, Santa Rita, Silva Maia, Montanha Russa, Praça Gonçalves Dias, Domingos Barbosa, Gomes Castro, 14 de Julho, Saavedra, Travessa da Lapa, do Outeiro, Avenida Dom Pedro II, Fábrica Martins, da Inveja, entre outras.

Você sabia que...


- Que os azulejos eram usados para isolamento térmico dos imóveis?
- Que uma das vantagens do uso de azulejos é a durabilidade e facilidade de limpeza?
- Que os azulejos eram usados em Portugal em palácios, igrejas, monastérios e só posteriormente em residências e comércio?
- Que Portugal recebia produtos cerâmicos esmaltados feitos na Espanha, Itália e Holanda e só no final do século XVI passou a confeccionar as peças próprias?
- Que Lisboa, Porto e Coimbra foram as cidades portuguesas responsáveis pela maior parte da produção de cerâmica no século XVIII, sendo que grande parte era enviada para as colônias, dentre elas o Brasil?
- Que os azulejos vinham para o Brasil nos porões dos navios e no retorno eram substituídos por riquezas obtidas em terras tupiniquins?
- Que os azulejos contribuíram para que São Luís recebesse o título da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1997, como Patrimônio Mundial?
- Que São Luís é considerada referência nacional no campo da azulejaria, principalmente na de fachada?

2 comentários:

Piramboia Lee disse...

Simplesmente amei todo o conteúdo do site parabenizo-os pela matéria, está perfeita e contém informações muito importantes. Prabéns.

Piramboia Lee disse...

Simplesmente amei todo o conteúdo do site, a matéria está perfeita, parabenizo-os pelo grandioso trabalho, contém informações muito importantes. Parabéns.