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sábado, 8 de outubro de 2011

Maranhenses Ilustres - Catullo da Paixão Cearense


Hoje 08 de outrubro,dia do  nordestino, lembramos do aniversário de um dos maiores compositores do Maranhão e do Brasil. Catullo da Paixão Cearense.
Ao se começar um levantamento da música nordestina dentro da indústria fonográfica nacional, nada mais justo que citar aquele que, além de violeiro, foi também poeta pioneiro do Nordeste a ter uma letra sua gravada em disco. Catullo da Paixão Cearense, nascido em São Luís, em 8 de outubro de 1863, entrou definitivamente para os anais da música brasileira ao trazer o violão das rodas de seresteiros para os conservatórios de música em 1908. O registro de Talento e Formosura - sua e de Edmundo Otávio Ferreira- feito pelo cantor Mário Pinheiro em 1906, constitui-se num dos itens mais raros da discografia nacional. Verdadeiro marco na afirmação de uma identidade regional na embrionária indústria cultural brasileira, a gravação deste acetato de 78 rpm se deu graças à instalação do primeiro selo de música no Brasil: a Casa Edison. É bem verdade que na época da gravação destas e de outras músicas, o compositor de Luar do Sertão já era um vate renomado, tendo suas audições de modinhas penetração nos saraus do Império, passando pelas primeiras décadas do século servindo de fundo musical à República Velha . Mas a primeira música de tonalidades rítmicas regionalistas, lembrando os folguedos do "Norte" foi Caboca de Caxangá, gravado no mesmo selo em 1913 com a denominação de batuque sertanejo. O registro, feito pela dupla Baiano e Júlia Martins, constitui-se portanto no momento zero em que a incipiente indústria fonográfica categorizou um segmento musical com referência nítida à região de onde teria vindo. Antes de se lançar no vôo desatinado de querer entender o artista puramente pela sua música, faz -se necessário que o leitor saiba um pouco mais sobre as origens do poeta. Filho do ourives Amâncio José da Paixão Cearense e de Maria Celestina Braga, o menino Catullo correu pelas ruas e casarões da sua cidade com os irmãos Gil e Gerson até os dez anos, quando se mudou com os pais, para a fazenda dos avós paternos, no sertão cearense. No contato com a gente simples, bebendo desta sabedoria e se fartando deste imaginário matuto, o futuro violeiro soube coletar os mais puros motivos e recria-los, além de registrar as peculiaridades lingüísticas do caboclo da caatinga. Suas modinhas, que a tantos agradaram no ocaso da monarquia e nas primeiras décadas da república, refletiam também o estado de espírito do boêmio, sempre a declamar apaixonado e muitas vezes desprezado pela sua amada. Sua presença cultural é tão grande na história da música brasileira deste período, que o escritor Lima Barreto chegou a criar o personagem Ricardo Coração dos Outros, um violonista compositor de modinhas e que é um dos coadjuvantes do clássico pré-modernista "Triste Fim de Policarpo Quaresma". Por citar o Rio de Janeiro, uma das mudanças mais marcantes na vida do artista aconteceria em 1880, quando a família se muda para a sede do império deslumbrada com Paris e tentando imitar os ares progressivistas da belle èpoque francesa. Uma vez lá, o violonista iria presenciar importantes fatos políticos como a Proclamação da República, e as subsequentes crises políticas dos presidentes Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Lá, em companhia dos flautistas Joaquim Callado, do violonista Anacleto de Medeiros e do cantor Cadete, o poeta trocou a flauta -até chegar no Rio ele só tocava este instrumento - pelo violão, instrumento ao qual foi iniciado por um estudante de medicina. Mas o começo não foi de glamour. Assim que chegaram, morreu a mãe, vindo o pai a falecer três anos depois. O boêmio teve que trabalhar. De dia pegava no pesado no cais, onde era estivador e à noite embaixo das sacadas, entoando suas canções. O casamento de Catullo com o violão que o imortalizou, se deu aos 19 anos, quando largou os estudos para se dedicar ao instrumento tido como propício das "rodas de capadócio". Quem fosse de boa família jamais andaria com um desclassificado que ostentasse um pinho! No dia 5 de julho de 1908, como já foi referido, Catullo revolucionou os padrões musico-culturais da época, quando a convite do Maestro Alberto Nepomuceno, fez um recital de violão no templo da música erudita de tradição européia: o sucesso foi geral e a platéia o aclamou. Até críticos desafetos lhe pediram desculpas. Neste momento a modinha ganhou ares de civilidade, e suas riquezas melodico-harmônicas
 conquistaram, o gosto da classe dominante.

 

Luar do Sertão até hoje ilumina memória de Catullo Em 1910, o maranhense extrairia da melodia do côco É de Humaitá na sua Luar do Sertão, que se tornou imediatamente um clássico da nossa música. A polêmica foi instaurada porque o violonista João Pernambuco reclamou autoria da música o que ainda hoje é discutido entre os seus historiadores. Nas décadas seguintes, o tempo só fez coroar aquele que tirou o violão dos ambientes sórdidos e ajudou na consolidação da modinha que, ao lado do lundu, foram os primeiros gêneros musicais surgidos no Brasil. Foram recitais três presidentes: Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca e Getúlio Vargas. Dentre os seus divulgadores principais está o cantor carioca Vicente Celestino, que fez sucesso entre os anos de 37 e 42, interpretando Catullo, além de Paulo Tapajós, Orlando Silva e Carlos José. Apesar de todo o sucesso obtido - não significando retorno finaceiro - houve também os inevitáveis desafetos, como foi o caso do violonista João Pernambuco, que também reivindicou autoria de Cabôca de Caxangá. A última homenagem digna de registro que se tem notícia foi a regravação de Luar do Sertão, feita pela dupla Luiz Gonzaga e Milton Nascimento em 1986 para um dos últimos discos do rei do baião. Ainda assim, publicou dez livros de canções com modinhas em estrutura semelhante aos cordéis com letras retratando o falar matuto. Como sempre acontece com a maioria dos grandes artistas, Catullo da Paixão Cearense morreu pobre em 10 de maio de 1946. Seus direitos autorais, possível e única fonte de renda, fora vendida a um amigo por preço irrisório. Findou seus dias morando numa casa de madeira no subúrbio carioca de
Engenho de Dentro.
 

domingo, 14 de junho de 2009

Maranhenses Ilustres - João do Vale


João do Vale – O poeta do povo


João do Vale,deixou canções com letras fortes (como os sertanejos) e contagiantes que alegram festas e forrós, mas que muita gente desconhece serem de sua autoria. Carcará, Pisa na fulô, Na asa do vento, A voz do povo, Sina de caboclo, “Coroné” Antonio Bento são algumas delas.

João cantou as dificuldades da vida de sertanejo pobre, que conheceu muito bem, e as alegrias e o orgulho de ser compositor/cantor reconhecido e muito querido por colegas de infância e por expoentes da música popular brasileira, como Chico Buarque, Nara Leão, Zé Kéti, Edu Lobo, entre outros.

Nascido em Pedreiras em 1934, interior do Maranhão, começou a trabalhar ainda menino, e aos 13 anos mudou-se para São Luís, onde participou de um grupo de bumba-meu-boi já compondo versos. Pouco depois seguiu com destino ao sul do país. Trabalhou como ajudante de caminhão, mineiro em Teófilo Otoni e, ao chegar ao Rio em 1950, foi empregado na construção civil, como pedreiro.

Com músicas e letras na cabeça, já que não sabia escrever, começou a freqüentar as rádios com a intenção de mostrá-las a artistas. Em 1950, conseguiu que Zé Gonzaga (irmão de Luiz) gravasse Cesário Pinto, que faria sucesso no nordeste. E em 1953, foi apresentado por Luiz Vieira a uma das “rainhas do rádio”, Marlene, que gravou sua Estrela Miúda que, tocada nas rádios, fez sucesso no Rio. João contaria depois que, ao ouvir a música no rádio, comentou com os colegas de trabalho, na obra, que era uma música de sua autoria. Eles duvidaram e lhe disseram que o sol quente estava prejudicando seu juízo.

Dois outros períodos foram muito marcantes em sua carreira. No início dos anos de 1960, conheceu Zé Kéti que o levou para se apresentar no ZiCartola, bar-restaurante de Cartola e Dona Zica que reunia artistas e músicos. Lá foi convidado a participar do show Opinião, ao lado de Zé Kéti e Nara Leão.



Opinião, idealizado por Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), Paulo Pontes e Armando Costa e dirigido por Augusto Boal, estreou em dezembro de 1964, foi assistido por mais de 25 mil pessoas só no Rio de Janeiro, e levado a outros estados, constitui-se num marco de resistência artística ao regime ditatorial vigente no país. Este show, que lançou também Maria Bethânia (que substituiu Nara), com sua marcante interpretação de Carcará, foi relançado anos depois em 1975, com Zé Kéti e Maria Medalha, sob direção de Bibi Ferreira.

No final dos anos 70, comandaria o “Forró Forrado” no Catete, casa de forró, democrática, que reunia um público amplo: estudantes, intelectuais, trabalhadores das obras do metrô. João recebia convidados como Chico Buarque, Edu Lobo, Zé Ramalho, Djavan, sempre animando as sextas-feiras, por cerca de dez anos.

Em 1981, com direção de produção de Chico Buarque, Fagner e Fernando Faro, João do Vale grava um belíssimo disco com participações especiais de Chico Buarque, Jackson do Pandeiro, Nara Leão, Fagner, Tom Jobim, Gonzaguinha, Clara Nunes, Zé Ramalho, Amelinha e Alceu Valença, atualmente disponível em cd.

Na década de 1990, vários shows beneficentes, em sua homenagem foram realizados, num período em que João do Vale já não conseguia cantar, devido a seqüela de “derrame”. E nesse mesmo sentido, em 1995, Chico Buarque produziu um segundo disco (cd) com interpretações também de vários artistas, alguns que já tinham gravado sucessos seus, como Maria Bethânia, Ivon Cury, Luiz Vieira, Marinês, além da participação de Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Alcione, entre outros.

Novas homenagens e resgate de sua história seguiram-se após sua morte, como o livro Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará, de Marcio Paschoal (Editora Lumiar); o cd Carcarás da Cidade - Um tributo a João do Vale, lançado pelo selo da Prefeitura de Nova Iguaçu, onde João do Vale morou por cerca de vinte anos; João do Vale mais coragem do que homem, de Andréa Oliveira (Edufitia) e o documentário João do Vale – muita gente desconhece, de Werinton Kermes.






Minha História

(Raimundo Evangelista e João do Vale)

Seu moço quer saber
Eu vou cantar num baião
Minha história pro senhor
Seu moço preste atenção
Eu vendia pirulito
Arroz doce, mungunzá
Enquanto eu ia vender doce
Meus colegas iam estudar
A minha mãe tão pobrezinha
Não podia me educar
E quando era noitinha
A meninada ia brincar
Vige, como eu tinha inveja
De ver Zezinho contar
- O professor ralhou comigo
Porque eu não quis estudar

Hoje todos são doutor
E eu continuo um João ninguém
Mas quem nasce pra pataca
Nunca pode ser vintém
Ver meus amigos doutor
Basta pra me sentir bem
Mas todos eles quando ouvem
Um baiãozinho que eu fiz
Ficam todos satisfeitos
Batem palma, pedem bis
E dizem: João foi meu colega
Como eu me sinto feliz

Mas o negócio não é bem eu
É Mane, Pedro e Romão
Que também foi meus colegas
E ficaram no sertão
Não puderam estudar
E nem sabem fazer baião


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Por Ferreira Gullar...

Devo dizer que considero João do Vale uma das figuras mais importantes da música popular brasileira. Se é certo que em 1964-65, quando se realizou pela primeira vez o show Opinião, os grandes centros do país tomaram conhecimento de sua existência e lhe reconheceram os méritos de compositor, não é menos certo que pouca gente de seu conta do que ele realmente significa como expressão de nossa cultura popular. Isso se deve ao fato de que João do Vale não é um compositor de origem urbana e que só agora se começa a vencer o preconceito que tem cercado as manifestações populares sertanejas. É verdade que em determinados momentos, com Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, essa música conseguiu ganhar o auditório nacional, mas para, em seguida, perder o lugar conquistado. É que o Brasil é o grande e diversificado. Basta dizer que, quando João do Vale se tornou um nome nacional, já tinha quase trezentas músicas gravadas, que o Nordeste inteiro conhecia e cantava, enquanto no Sul ninguém ainda ouvira falar nele. Lembro-me da primeira vez que o vi cantar em público, em 1963, no Sindicato dos Bancários, no Rio, convidado por Thereza Aragão. Dentro de um terno branco engomado, pisando sem jeito com uns sapatões de verniz, entrou em cena. Parecia encabulado, mais, quando começou a cantar, empolgou o auditório. Era como se nascesse ali o novo João do Vale que, menos de dois anos depois, na arena do Teatro Opinião, faria o público ora rir, ora chorar, com a força e a sinceridade de sua música e de sua palavra. Autenticidade é uma palavra besta mas é na autenticidade que resida a força desse João maranhense, vindo de Pedreiras para dar voz nacional ao sertão. Mas não só nisso, e não apenas no seu talento, como também em sua cultura. Há gente que pensa que culto é apenas quem leu muitos livros. No entanto, se tivesse tido, como eu a oportunidade de ouvir João cantar as músicas sertanejas que ele sabe, veria que ele é a expressão viva de uma cultura. De uma cultura que não está nos livros mas na memória e no coração dos artistas do povo.

Ferreira Gullar


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Para saber mais:

http://www.mpbnet.com.br/musicos/joao.do.vale/

http://www.portrasdasletras.com.br


discografia:

http://www.cliquemusic.com.br/artistas/joao-do-vale.asp

sábado, 11 de abril de 2009

Maranhenses Ilustres: Lopes Bogéa e Antônio Vieira




Esses dois geniais artistas populares estão para a Música Popular do Maranhão (MPM), assim como os cantores e compositores Cartola e Nelson Cavaquinho estão para a Música Popular Brasileira (MPB).

Esses dois maranhenses de jeito simples, através das suas composições, retrataram de maneira simples e despretensiosa o cotidiano do maranhense nascido na Ilha de São Luís, que vive extraindo das coisas belas e simples que a vida nessa Ilha oferece, a seiva que alimenta o corpo e dá tenacidade à alma.

Antônio Vieira e Lopes Bogéa, que não tiveram em vida, o reconhecimento do povo brasileiro, por terem nascido e vivido numa cidade, que não obstante, ser reconhecida como sendo a capital da cultura brasileira, fica muito distante dos maiores centros difusores da cultura popular do Brasil, ou seja, de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

Com mais de 300 composições, cada um desses cantores e compositores maranhenses, assim como outros grandes nomes da música brasileira que só foram reconhecidos após as suas mortes -, a mesma sorte lhes está reservada.

O talento de cada um deles, faz jus à história de um estado rico, que só não se destaca mais no cenário musical brasileiro, devido, como já foi dito aqui, a enorme distância que separa o Estado do Maranhão dos maiores centros urbanos deste país.

Com a morte de Antônio Vieira, no último dia 07/04, o Estado do Maranhão que já havia perdido Lopes Bogéa em 2004, fica muito mais pobre e saudoso desses dois artistas imortais, que tão bem souberam registrar através das suas artes, a vida, os costumes, a alegria e o espírito festivo de um povo que vive sempre de bom humor.

Antes que eu me esqueça: O Estado do Maranhão que revelou para o Brasil, nomes como os de Catulo da Paixão Cearense, João do Vale, Nonato Buzar, Alcione, Dilú Melo, Raimundo Soldado, Turíbio Santos, Claudio Fontana (João Sá - um dos grande ídolos da jovem Guarda). Isso para falar só dos mais importantes.


Banho Cheiroso
Rita Ribeiro
Composição: Antonio Vieira

Você deve tomar banho cheiroso
Prá acabar com essa mofina
E o corpo ficar jeitoso
Você sente uma moleza
Sem ter doença nenhuma
Tem a vida atrapalhada
Não consegue coisa alguma
Então ouça o meu conselho
Ele é muito valoroso
Pois não perca mais seu tempo
E tome banho cheiroso
Você deve tomar
Banho cheiroso
Prá acabar com essa mofina
E o corpo ficar jeitoso
Ele é feito de tipy
Pau de angola e puxuri
Leva trevo de mulata
E também patchouli
Jardineira, pataqueira
E também manjericão
Leva rosa todo ano
Amoníaco e açafrão.
Você deve tomar banho cheiroso
Prá acabar com essa mofina
E o corpo ficar jeitoso

Do blog Dom Severino
Lopes Bogéa, compositor tão prolífico quanto oculto, tem obra póstuma lançada por seu conterrâneo, o músico Zeca Baleiro

Livia Deodato

O maranhense Lopes Bogéa cantou a pobreza, a fartura, a vida e a morte. Reverenciou a natureza, o samba, a companheira de uma vida toda. Imprimiu as suas mais sensíveis observações em mais de 300 composições que só agora, três anos após a sua morte, o público terá a chance de conhecer. Balançou no Congá é a obra póstuma do artista descoberto tardiamente - como muitos outros perdidos pelo Brasil afora -, que reúne 17 das mais significativas músicas de seu extenso repertório guardado em velhos cadernos e na memória de sua filha, Heleudes Bogéa.

Seu conterrâneo Zeca Baleiro foi quem deixou os últimos dias de vida de Bogéa um pouco mais ensolarados. Mas ele rejeita rótulos do tipo 'embaixador' daquele Estado. 'Eu sempre refutei esse cargo, sempre fui muito avesso a tudo que soasse oficial demais, chapa branca. Por eu ser do Maranhão e meu trabalho ter hoje uma certa visibilidade, certos projetos vêm até mim. E quando acredito que eles são bacanas e louváveis, eu assino embaixo', diz. Zeca não só assinou embaixo, como produziu à própria custa o primeiro álbum do compositor que permaneceu escondido entre os azulejos de São Luís durante os 78 anos que viveu. A gravadora de Zeca, Saravá Discos, é a responsável por esse belo trabalho iniciado em 2002 com a ajuda de outro maranhense, muito amigo de Bogéa, o músico Chico Saldanha.

Baleiro conheceu pessoalmente Bogéa por intermédio de Antonio Vieira, outro prolífico compositor da ilha, hoje com 87 anos, que também foi presenteado com um álbum autoral em 2001, O Samba É Bom, que agora é relançado também pela Saravá Discos. Vieira e Bogéa, amigos de longa data, alcançaram relativo destaque na região com o livro Pregões de São Luís, dos anos 80, onde se inspiraram em cantos de vendedores ambulantes, como O Carvoeiro, O Amolador, O Sorveteiro, O Verdureiro, A Doceira. Diz um deles: 'Pamonha, pamonha, pamonha.../Tá quentinha!/A pamonha só é boa/quando é feita por dindinha.' Foi transformado em LP em 1988 e, 10 anos depois, acabou sendo relançado em CD sob o título Pregoeiros.

Vieira sempre procurou exibir suas canções em shows da capital maranhense e em cidades do interior. Até hoje, firme e forte, não hesita em aceitar convites para apresentações pelo País. Diferentemente de Bogéa: ainda que tivesse uma produção muito fértil (e fosse muito mais 'da balada' do que Vieira, segundo Baleiro), passou muito tempo de sua vida se dedicando ao jornalismo, exercendo as funções de rádio-escuta, repórter, redator e diretor artístico, dos anos 60 até fim dos 70, na Rádio Timbira e no Jornal Pequeno. Escreveu também alguns livros, todos relacionados à cultura popular.

Enquanto isso, suas músicas encantavam o cantor paraense Ari Lobo e os grupos Cobras do Norte e Nonato e Seu Conjunto, que fizeram reverberar, ao menos regionalmente, seu talento musical. Compôs com João do Vale 350 anos de São Luís, interpretada no novo álbum pela também conterrânea Alcione, que fez questão de participar da compilação. 'O pai de Alcione, maestro João Carlos Nazaré, era muito amigo de Bogéa, assim como minha mãe, que estudou com ele', conta Baleiro.

Além de Alcione, participam do álbum os maranhenses Rita Ribeiro, Criolina (leia abaixo), Chico Saldanha, Josias Sobrinho, César Teixeira, Tião Carvalho e Baleiro, obviamente. Beth Carvalho, Germano Mathias e Genival Lacerda completam a lista de intérpretes do altíssimo escalão aprovado previamente por Bogéa, que só conseguiu dar voz a quatro de suas composições - Balaiei, Sim, Balançou no Congá, Siricora e Sapoti. 'Eu ia sugerindo os nomes e ele, ressabiado, com ares de quem já foi muito enganado na vida, dizia 'será?'', relembra Baleiro. Pouco meses depois de ter iniciado as gravações em 2003, morreu em decorrência de um câncer.

A divisão das músicas para cada intérprete também não foi ao acaso. Para Germano Mathias, o samba sincopado Eu Sou do Apartamento Aqui de Baixo. 'Ele adorou, disse que já tá inclusive cantando nos shows dele.' A Beth Carvalho foram enviadas duas opções - mas ela acabou preferindo o partido-alto Sambista de Fato. Já Rita Ribeiro ficou com o carimbó A Gente e o Mar, enquanto Genival Lacerda forrozeou em Encruzado. 'Cada um pegou a sua 'praia'', diverte-se Baleiro.

As músicas, que ainda passeiam pelo baião, marchas e toadas de boi, ganharam arranjos do violonista paulistano Swami Jr., do baixista alagoano Fernando Nunes e do violonista maranhense Luís Jr., além de Baleiro. 'Os arranjos tinham de ser com formação acústica, uma instrumentação básica de samba, além da sanfona. Fiz alguns deles e chamei outros três arranjadores, para que o disco tivesse cores variadas', explica.

PROFETA

O compositor não só nasceu no Dia de São João, como num local homônimo à cidade onde o santo viveu: Jericó, no município de Guimarães (MA). João Batista Lopes Bogéa era tido como um homem generoso e justo. Dedicou grande parte de sua vida ao Asilo de Mendicidade de São Luís, onde atuava como diretor de Patrimônio. Iniciou-se na maçonaria em 1954, graças a seu pai adotivo, João Lélis, marido de sua irmã Domingas. Acreditavam que só assim aquele moleque tomaria juízo e deixaria de 'presepadas'. 'Me endireitei', dizia a todo mundo, na tentativa de ele mesmo se convencer disso.

Diz a lenda que, assim como o filho de Isabel, irmã da mãe de Jesus, Bogéa também tinha o dom de predizer o futuro. Pouco antes da empreiteira Serveng-Civilsan iniciar a instalação de uma siderúrgica em São Luís em 1972, ele escreveu a música Exaltando a Minha Terra (Minha terra é de esperança/O progresso lá avança/Cada dia, dia mais.../Siderúrgica chegando, Itaqui-Porto exportando/Minério de Carajás). Mistérios do Maranhão.

Glossário

SIRICORA - Variação de saracura, ave brasileira

CONGÁ - Variação de gongá, é o terreiro da umbanda

SAPOTI - Fruto cônico, de casca fina e coloração castanho-escura do sapotizeiro, árvore tropical

GUARIMÃ - Planta de onde se tira a fibra para fazer balaio

BALAIO - Cesta de palha

BALADEIRA - Estilingue, rede

VENTEJAR - Separar cascas e fragmentos (de arroz ou milho) com peneira

PANACU - Grande cesto de vime com duas alças para frutas, louça, roupa

XERÉM - Sobra do milho que serve de comida de animais

MUNDONGUICE - Malandragem, mandinga

BANZEIRO - Quando o mar se agita em pequenas ondas

TERÉM - Treco, tralha, coisa

CUNHÃS - Índias

(© Estadão)