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No Canto de Atins, uma receita de camarão secreta e deliciosa
- Os animais vivem na mata, mas se acostumaram com o contato com os humanos. O Ibama esteve aqui e disse que não ameaçamos as espécies, mas pediram para não darmos mais comida para os macacos. Só que eles são abusados e roubam - conta Ana Lúcia Gomes Dias, que há dez anos vive ali com o marido, Nalberto Ribeiro Dias.
Além dos animais silvestres, há patos com filhotes perambulando pelo chão de areia. O lugar é uma parada estratégica para matar a sede com água de coco ou cerveja, no caminho entre Barreirinhas e a foz do Preguiças.
O povoado de poucas casas geralmente é uma das paradas no passeio de barco até a foz do Preguiças. Mesmo que não esteja no roteiro, peça para o piloto fazer uma escala. Vale a pena pelos bichos, pela simpatia da família, pela cerveja gelada diante do visual privilegiado e, principalmente, pelo banho de rio, que é redentor. Sem falar na fileira de redes à sombra. Mas Vassouras é só uma etapa. A razão última deste passeio seria a foz, e o farol que está perto dela. Depois das excursões pelas lagoas, o roteiro rio abaixo é o favorito dos visitantes que estão em Barreirinhas.
Chamado de Farol Preguiças de Mandacaru, a instalação da Marinha foi batizado dessa maneira por ficar em uma localidade que leva o nome do cacto. Talvez seja por isso que, assim que o barco ancora no modesto cais, as crianças venham correndo, em troca de algum dinheirinho, apresentar o seu repertório, não tão afinado assim, mas de uma beleza rara. Pelo menos para quem, como eu, acha que criança cantando é sempre bonito:
- Mandacaru quando fulora na seca é o sinal que a chuva chega no sertão...
A visita ao farol propriamente dito, que parece vestido de presidiário, por ser pintado com listras pretas e brancas, seria absolutamente dispensável, se não fosse por um detalhe: a vista que se tem lá do alto, e a simpatia dos marinheiros que tomam conta do lugar (como já deu para notar, sim, são muito simpáticos os moradores dos Lençóis Maranhenses). Vale a pena encarar os cerca de 170 degraus que levam até lá em cima. Vemos o mar, os rios, os campos cheios de buritis e açaizeiros (chamados de juçara), as dunas.
Apesar da imponência do farol, instalado em 1940, com os seus 35 metros de altura, a principal atração dessa porção dos Lençóis está um pouco mais adiante. Mais precisamente no vilarejo conhecido por Canto de Atins: trata-se do camarão da Luzia, uma preciosidade não incluída no passeio de barco.
O tal passeio de barco normalmente prevê almoço em algum dos restaurantes de Caburé, na foz do Preguiças. Mas quer saber qual é a boa? Fique em Atins, pelo menos uma noite. Lá tem praia, dunas e lagoas, tudo junto, tudo lindo. Também é possível se hospedar em Caburé, mas não é tão bonito quanto Atins, do outro lado do rio. Nem tem o camarão da Luzia...
Se o passeio rio abaixo é um programa clássico, o mesmo não se pode dizer dos roteiros que sobem o Rio Preguiças, passando pelos povoados de Tapuio (leia no box abaixo) e Marcelino, que começam a entrar nos roteiros de operadoras especializadas em aventura e natureza, como a Pisa Trekking e a Freeway. Em Marcelino, dá uma ponta de orgulho de ser brasileiro, ao encontrarmos uma comunidade unida e organizada, que cuida da natureza ao redor e faz dela, de maneira sustentável, o seu meio de vida, em atividades como a criação de tambaquis ou na extração de fibra de buriti para o artesanato.
O trabalho cuidadoso dos artesãos de Marcelino, que integra os projetos Artesanato em Fibra de Buriti, do Sebrae do Maranhão, e o Projeto Talentos do Brasil, vem chamando a atenção do mundo da moda. A ponto de o estilista mineiro Renato Lourenço ter desenhado algumas peças para eles, que participaram da última edição do Rio-à-Porter. Marcelino é um modelo de comunidade. E indo contra ou a favor da correnteza, o passeio pelo Rio Preguiças mostra que os Lençóis Maranhenses são muito mais que apenas uma bela coleção de lagoas.
Histórias na casa de farinha
- Fazemos a farinha comum e a d'água, que é mais grossa. Ela leva esse nome porque, depois de ralarmos a mandioca, e antes de levarmos ao fogo para tostar, deixamos a massa por três dias dentro do rio - explica Maria.
Ela não se limita a falar apenas sobre a produção de farinha de mandioca. Conta histórias da região, e ainda explica como se faz o chamado bolo de goma, uma iguaria típica que leva polvilho azedo, coco e uma pitada de sal.
- Esse doce é servido na Festa de São Gonçalo. Pena que hoje não tem, vocês iam adorar - diz Maria José.
Um passeio boêmio ao redor da duna
Também estão à beira-rio os bares com música, que ficam cheios nas noites dos fins de semana, feriados e férias escolares brasileiras. Quase todos têm shows de música, o que pode ser um tormento para uns, e divertidíssimo, para outros, dependendo do humor. No caso do meu grupo, que estava bem animado, foi ótimo. Em primeiro lugar, porque o músico era bom. Em segundo, o repertório era interessante, com MPB e rock. E o rapaz ainda atendia aos nossos pedidos, escritos em papel, ou gritados nos intervalos entre uma música e outra - como o clássico "Toca Raul!".
De lá seguimos o Preguiças, caminhando pela areia, e contornando a duna. Já víamos as luzes, algumas delas coloridas. O destino? Um bar, que na realidade é um barco ancorado, o último sopro de boemia na cidade naquela noite de quinta-feira. O relógio marcava umas 23h30m quando pagamos o ingresso (R$ 5 para os homens, e R$ 3 para as mulheres).
Mas resolvemos tentar a sorte: "Toca Luiz Gonzaga!", pedimos, quase em uníssono, sem muita esperança de sermos atendidos. Mas não é que o sujeito que tocava no bar-barco arrumou uma sanfona, e o set list melhorou consideravelmente, passeando pelos maiores clássicos do Rei do Baião, com direito a hits de Dominguinhos? Como não adorar um bar desses?
Bons pratos à beira do rio
Outro endereço que combina boa comida com ambiente agradável é o restaurante da Pousada Murici, voltado às especialidades regionais, como o filé de pescada-amarela com molho de camarão, a caldeirada de camarão, o baião de dois e a carne de sol.
Oeste de Lençóis é menos explorado
Por mais que o Rio Preguiças seja farto em atrações naturais, não faz muito sentido ir até os Lençóis Maranhenses para ver as lagoas vazias - existem algumas perenes, mas ficam baixas, e o cenário não é tão belo e exuberante. Esses aquários de água doce, clara e de temperatura amena são o filé mignon do pedaço, uma das paisagens mais lindas e desejadas do Brasil, com todos os méritos. Bom para quem planeja uma viagem ao Maranhão é saber que começa exatamente agora, em maio, o período perfeito para se visitar a região, que está com as lagoas cheias até por volta de agosto, quando elas começam a esvaziar. As constantes chuvas do início do ano já se foram, deixando o nível da água em seu ponto mais alto, realçando - e muito - a beleza do lugar.
A partir de Santo Amaro é possível fazer travessias a pé com duração de até quatro dias, seguindo no sentido leste, em direção a Atins. Vá sempre com auxílio de guias locais, porque a paisagem muito parecida dificulta a localização, e só quem conhece bem a região é capaz de se orientar. Mas, para explorar as belezas do parque, não é preciso encarar as dunas com tamanho espírito de aventura e preparo físico. É possível subir em carros 4x4 para percorrer as trilhas que levam a alguns povoados localizados dentro dos limites da área de preservação ambiental, como Queimada dos Britos, Atins e Casante, e também para algumas lagoas como a da Gaivota, a maior dos Lençóis e uma das mais lindas, a cerca de 30 minutos a partir de Santo Amaro do Maranhão.
Diversão fluvial
Além do Preguiças, outros rios garantem a diversão fluvial nos Lençóis Maranhenses - isso sem falar nos igarapés que cortam a região. O mais famoso desta turma é o Rio Cardosa, que está a cerca de 35 quilômetros de Barreirinhas. Ali, sim, a preguiça toma conta dos visitantes, que não precisam fazer nada, basta deixar a boia descer rio abaixo, calma e lentamente.
Outras localidades da região, que é muito irrigada, também apresentam cada qual o seu agradável curso d'água. Assim como Barreirinhas, Santo Amaro do Maranhão também tem a sua Rua Beira-Rio - e nela também estão boa parte dos bares, restaurantes e pousadas. Perto dali fica o povoado de Betânia, um dos bons passeios a serem feitos a partir de Santo Amaro. Uma das atrações do lugar é o Rio Alegre, delicioso para um banho.
O povoado de Canto de Atins também tem o seu riozinho gostoso, no qual navegam turistas em embarcações rústicas, embaladas pelas velas - com sorte, é possível ver uma revoada de guarás. O passeio é feito no fim de tarde, para coincidir com o pôr do sol, essa sim uma qualidade uniforme em qualquer lugar dos Lençóis Maranhenses: de qualquer lugar, é sempre lindo.
COMO CHEGAR:
De carro: De São Luís para Barreirinhas são 257 quilômetros, seguindo pela MA-402. O carro alugado é pouco usado quando você estiver na cidade, onde todas as atrações estão ao alcance de um passeio a pé, mas o veículo garante mais conforto na ida e na volta. Várias empresas também providenciam o transporte a partir de São Luís, e podem ser contratadas pelo hotel em que você for se hospedar. Também é possível ir no ônibus da viação Cisne Branco ( www.cisnebrancoturismo.com.br ), que faz o trajeto em quatro horários por dia: 6h, 8h45m, 14h e 19h30m, a ida, e 6h, 9h, 14h e 18h30m, a volta. Ambos os trechos custam R$ 28.
ONDE FICAR:
Pousada Murici: Diárias a partir de R$ 105. O restaurante também é um dos melhores de Barreirinhas. Rua Domingos Carvalho 590, Barreirinhas. Tel. (98) 3349-1192. www.pousadamurici.com.br
Porto Preguiças Resort: Diárias a partir de R$ 315. Barreirinhas. Tel. (98) 3349-6050. www.portopreguicas.com.br
Resort Lençóis Maranhenses: Diárias a partir de R$ 222. Rua Anacleto Carvalho, Cruzeiro, Barreirinhas. Tel. (98) 3349-1139. www.lencoisresort.com.br
Pousada Rancho do Buna: Diárias a partir de R$ 145. Praia do Atins. Tel. (98) 3349-5005. www.ranchodobuna.com.br
Pousada Água Doce: Diárias a partir de R$ 120, tem um ótimo restaurante. Rua Osvaldo Cruz 14, Santo Amaro do Maranhão. Tel. (98) 3369-1105.
Pousada Cajueiro: Diárias a partir de R$ 115. Rua Oswaldo Cruz 2-A, Santo Amaro do Maranhão. Tel. (98) 3369-1119. www.pousadacajueiro.com
ONDE COMER:
Bambaê: Estrada de São Domingos, Boa Vista, Barreirinhas. Tel (98) 3349-0691. www.encantesdonordeste.com.br
Camarão da Luzia: É o restaurante mais famoso do Maranhão. Canto de Atins. Tel. (98) 8709-7661.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/viagem/mat/2011/04/27/para-alem-da-aridez-dos-lencois-maranhenses-vegetacao-exuberante-do-rio-preguicas-924333128.asp#ixzz1ZvGo2jnQ
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